A família Marengo e a tradição no cultivo da uva

A família Marengo e a tradição no cultivo da uva

Em relação ao plantio de frutas, extraordinários vinhedos foram desenvolvidos por Benedito Marengo, italiano natural de Turim, que chegou ao Tatuapé em meados de 1887. Após ter trabalhado como jardineiro e ter ajudado o Dr. Luiz Pereira Barreto a implantar o vinhedo de sua propriedade na atual Avenida Rio Branco, Marengo resolveu tentar a sorte sozinho. Comprou 24 mil metros quadrados de terras na Vila Gomes Cardim, entre as Ruas Serra de Bragança, Cantagalo, Monte Serrat e Francisco Marengo.

Devido seus conhecimentos em técnicas de viticultura, seu sítio logo começou a dar excelentes frutos. Em pouco tempo suas uvas eram vendidas não só no próprio bairro, mas em toda São Paulo. A grande procura dos seus produtos logo tornaram a propriedade pequena. A solução foi comprar mais 96 mil metros quadrados junto à Estrada da Penha, onde atualmente se localiza o Hospital Municipal do Tatuapé.

Uma das suas mais interessantes iniciativas foi a introdução das uvas Niágara no Brasil. A idéia foi coroada de pleno êxito, tal a adaptação do produto americano em São Paulo. Esse extraordinário empreendedor morreu cedo, com apenas 49 anos, exatamente no ápice de seu trabalho. Deram seqüência ao seu profícuo labor, seu filho Francisco e, posteriormente, seu neto Cesar. Hoje, a família, já em sua quarta geração, continua desenvolvendo o empreendimento em uma fazenda situada na vizinha cidade de Suzano.

Uma coisa é digna de nota na história do Tatuapé: a tendência para o cultivo da uva. Já Braz Cubas, seu primeiro desbravador, dera início a plantações de vinhedos em suas terras do Piqueri. Não foi diferente com os indivíduos que o sucederam, uns mais, outros menos, todos se dedicaram ao plantio dessa cultura.

Vê-se, pela história, que o cultivo teve como ponto inicial as terras próximas ao Rio Tietê, porém, mais recentemente, a seqüência deu-se em terras de Vila Gomes Cardim. Para confirmar essa predestinação, em 1865, portanto antes do próprio Marengo, João da Silva Carrão – o conselheiro Carrão – já plantava seus parreirais na área abrangida pelas atuais Vila Matilde, Vila Califórnia e Aricanduva, na época todas pertencentes ao Tatuapé. Esse homem dedicou-se também à fabricação de vinho. A excelente qualidade do seu produto foi testada em 1876. Nada mais nada menos que o Imperador Dom Pedro II passou pelas terras daquele que futuramente seria seu conselheiro.

Estava em viagem de inspeção das obras do trecho da ferrovia que ligaria o bairro do Brás à cidade de Mogi das Cruzes. Convidado por Carrão, não se fez de rogado, passando alguns momentos agradáveis na propriedade do amigo, aproveitando para degustar o precioso vinho oferecido pelo anfitrião.

Netas

Netas de Francisco, entre parreiras de uvas. Foto de 1903

Falando ainda em uva, é necessário lembrar de outro importante viticultor: Francisco Ziccardi. Imigrante italiano, como tantos outros, chegou ao Brasil por volta de 1890. Aqui casou-se com Cecilia Camardo, irmã de Antonio Camardo. Cecilia, como já foi dito, estivera com sua família em Itatiba, cidade do interior paulista, cumprindo o contrato de pagamento das despesas de viagem.

Ao chegar ao Tatuapé, e antes de ter sua própria chácara, Francisco trabalhara 12 anos nas propriedades da família Marengo. Nesse período aprimorou seus conhecimentos de viticultura trazidos de sua terra natal, principalmente as técnicas de enxertia. Quando deixou os Marengo, Ziccardi comprou uma gleba de terra entre as Ruas Antonio Camardo, Apucarana e Itapeti. Comparadas às terras de outros proprietários eram pequenas, apenas 12.500 metros quadrados, mas bem aproveitadas, deram excelentes resultados.

Após anos de seguidos sucessos e de relativa prosperidade, adveio a fatalidade, três geadas consecutivas acabaram com seu vinhedo. A partir daí, Ziccardi transformou sua chácara em vacaria, passando a fornecer leite a uma pequena freguesia. Mais tarde, também este setor foi abandonado, vindo em seguida o cultivo de hortaliças e frutas. Francisco e Cecília tiveram 7 filhos: Angelina, que viveu apenas uns poucos meses, Nicola Antonio, João, Carmela, Adelina, Cristina e Ivo. Nos dias atuais, apenas Nicola, Carmela e Cristina vivem. Dona Cecilia faleceu em 1954; Francisco, em 1967.

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