A importância das olarias e dos portos de areia no Tatuapé – Não podem ser esquecidas as inúmeras chácaras de flores. Estas geralmente se localizavam na parte baixa do bairro, nas imediações da Estrada da Penha. Na Rua São Felipe havia duas: a de Maria Tinoco, no terreno onde hoje se acha instalado o Depósito de Materiais de Construção Guedes; outra, de Manoel Carreiras e dona Rosa, sua esposa, no local atualmente ocupado pelo prédio da Polícia Feminina. Dona Rosa negociou, com flores, de 1957 em diante. Tinha uma loja, nas proximidades, denominada: Floricultura Chácara das Flores.
Antes dela e seu marido arrendarem a chácara citada, fora seu proprietário o senhor Adrian Carreras, isto desde a década de 30. Outra grande gleba plantada com flores ficava do lado direito do Cine São Jorge, junto à Avenida Celso Garcia. Dálias, rosas, gerânios, cravos, hortências, margaridas, lírios, jasmins e violetas espalhados por vastas áreas do bairro, davam esplêndido visual aos passantes.
Raros eram, naqueles tempos, os pomares ou jardins que não tinham ao menos um pé de dama da noite. Esses arbustos impregnavam o ar com seu inefável perfume. Era também muito comum os portões das casas adornados por pés de primaveras. Geralmente os proprietários montavam sobre duas colunas de alvenaria, um arco executado em ferros, pelos quais se entrelaçavam os galhos da primavera. Estas, com suas flores em tons vivos e variados, davam um alegre colorido à frente das moradias.
Como já foi amplamente explanado, a maior parte dos chacareiros possuía no mínimo uma parelha de animais. Também possuíam duas ou três carroças para diversos usos: levar as mercadorias ao mercado ou a bairros distantes, ir buscar o lixo, quando chamados, no lixão da Quarta Parada etc. Em vista disso, desenvolveram-se atividades correlatas.
Assim é que Raphael Boccia fabricava carroças em sua oficina nas proximidades da atual Rua Síria, esquina com a Celso Garcia, o mesmo acontecendo com o senhor Feijó, na Rua Felipe Camarão. Também havia necessidade de profissionais para ferrar os cascos dos animais.
Nicola Ziccardi em princípio precisava deslocar-se até a Rua Belém, na oficina do senhor José, posteriormente um ferreiro de nome Roque instalou-se na Rua Padre Adelino, facilitando a vida dos chacareiros da parte alta. Já na parte baixa, um outro ferreiro, senhor Albano, na Avenida Celso Garcia, nas proximidades do Cine S. Luis, resolvia o problema dos seus moradores.

Paralelamente às chácaras e vacarias, duas outras atividades tiveram alta significação para o desenvolvimento econômico do bairro: as olarias e a extração de areia. O surgimento de ambas só foi possível a partir de permissão governamental e do conseqüente arrendamento em hasta pública das terras ribeirinhas.
A maior parte das áreas arrendadas acabaram nas mãos de imigrantes italianos. Assim surgiram em terras do Tatuapé as famílias: Campanella, Palota, Mastrobuono, Perfetto, Aurino, Perrela, Calabrez, Colarilo, Del Bucio, Napolitano, Falcone, Capalbo, Carlina, Fiore, Marcílio e Botoni. Como se vê, quase duas dezenas de olarias foram instaladas às margens do Tietê, entre a atual Avenida Salim Farah Maluf e as cercanias do bairro da Penha.
Assim como no caso dos chacareiros, os oleiros tinham família numerosa. Geralmente todas as pessoas, excetuando-se as crianças, trabalhavam no empreendimento. No entanto, devido o trabalho ser totalmente artesanal, ainda havia necessidade de recrutar mão-de-obra externa.
Resumidamente, esse árduo trabalho assim era realizado: o barro, geralmente preto, da região, era coletado em carroças e jogado na pipa. Assim chamavam vulgarmente o recipiente de homogeneização do material. Na pipa giravam as pás, que através de um eixo e respectivas hastes laterais eram tracionadas por uma parelha de burros. Após homogeneizado, o barro era recolhido por carrinhos de mão e levado até os tabuleiros, sobre os quais se assentavam as formas.
Essas eram enchidas pelo tijoleiro, sendo o excesso raspado por meio de espátulas. Após isso, os tijolos iam sendo extraídos das formas e colocados ao ar livre para a secagem. Ato contínuo, levados ao forno de lenha para o respectivo cozimento.