É até salutar a vontade do novo prefeito de tornar transparentes todos os seus projetos e ainda propor à população que participe com sugestões e críticas. Para um regime dito democrático é o ideal, pois aproxima moradores do poder público. No entanto, o que vimos, nas apresentações dos planos de Meta e Diretor da Prefeitura, foi uma plateia muitas vezes despreparada para compreender claramente o discurso de engenheiros e técnicos.
E o que está acontecendo agora não é novidade para ninguém. Contudo, antes da transição dos governos, seria obrigação de Kassab fixar na memória da população o fato dela ter de pensar a cidade para as discussões dos planos. Agora, a maioria dos moradores não sabe como se comportar e se engana na hora de apresentar o que quer para a sua rua, o seu bairro ou para a cidade de um modo geral.
Diante dessa desconexão entre a população e a Prefeitura, para voltar a debater estas questões, parece que as apresentações dos engenheiros são feitas em grego e não em português. Mais uma vez a realidade mostra que a teoria é bem diferente da prática. Não temos muito tempo para pensar e devemos acompanhar o prazo para discutir, elaborar e finalizar as propostas.
Ora, se os moradores ainda estão confusos para descobrir se suas propostas se encaixam dentro do que é possível ao governo, como fazer isso a toque de caixa? Não dá! E o que é pior, a Prefeitura ainda poderá nos prejudicar depois.
Mudam os governos, mas a preocupação com a população parece que nunca atingirá o nível merecido por ela. Sempre vemos projetos obscuros, aprovações na calada da noite, ou planos que nunca sairão do papel, nos serem colocados garganta adentro. Aí quando chega a nossa vez de propor uma cidade mais humana e civilizada, temos de ter tudo na ponta da língua e também fazer a apresentação dentro das conformidades técnicas. Caso contrário, estaremos fora do processo. Só voltaremos à cena na rediscussão daquilo que não foi aproveitado a primeira vez. Ou seja, teremos uma dificuldade maior ainda de agradar a “banca examinadora”.
Ainda é muito complicado entender essa metodologia. Às vezes, durante quatro anos ninguém da Prefeitura nos ouve. Porém, quando o governo precisa cumprir as metas prometidas, somos chamados às pressas para participar da composição de um conjunto de regras e normas que irão reger a cidade nos próximos dez anos ou mais.
Os planos de Meta e Diretor são muito sérios, pois vão mudar a estrutura da cidade. Seu modo de crescer, de estabelecer modelos de transporte, mobilidade, entre outros vários itens pouco detalhados para os moradores que estão indo às reuniões. Não é fácil se sentir um peixe fora da água, principalmente quando se percebe o quanto a discussão poderá afetar sua maneira de viver e conviver com as pessoas e todo o planejamento urbano.
Tomara que estejamos enganados, mas alguns acontecimentos ocorridos, durante a gestão Kassab, no debate do Plano Diretor, não foram agradáveis. Sobretudo quando as pessoas guardam o sentimento de terem sido enganadas. Se deixamos nossos afazeres em casa e vamos a um encontro com a vontade de mudar o que acreditamos estar errado na cidade, não estamos brincando de exercer a cidadania. Portanto, queremos que a Prefeitura nos ouça e nos dê a atenção devida também nos próximos anos.
Se tivemos o interesse em tentar traduzir muitos discursos proferidos em grego, porque o prefeito Fernando Haddad e seus engenheiros não podem entender o bom português?