Por 13 capítulos, Humberto Carrão é o protagonista de “Renascer”, nova novela das nove. O ator, que encara a missão de reviver o lendário José Inocêncio na juventude, não precisou de muito tempo de tela para compreender a mítica e a importância da obra original de Benedito Ruy Barbosa. Carrão ficou envolvido por toda a lenda que envolve o fazendeiro e seu pacto com o imponente jequitibá-rei, na nova versão da novela, com assinatura de Bruno Luperi, na qual já encerrou sua parte nas gravações.
“Eu realmente acho essa primeira fase, tanto assistindo quanto atuando, uma das coisas mais bonitas que eu já vi. Esse texto é muito poderoso. É uma loucura fazer um juramento, um pacto com uma árvore. Mas aí quando você chega e vê que é uma árvore de mil anos, vai entendendo. Eu me surpreendi porque o Gustavo Fernández (diretor) é um assombro e a forma como fomos entendendo essa cena foi muito bonita. O que me surpreendeu foi a emoção da coisa, todos ficamos muito emocionados com o pacto com uma árvore, ainda mais nesse Brasil”, defende.
Na primeira fase do folhetim, José Inocêncio chega ao sul da Bahia de forma misteriosa, sem posses e sozinho no mundo. Depois de ficar entre a vida e a morte, acaba assumindo as terras de uma viúva do cacau e ali, começa uma revolução na maneira de se plantar o fruto, que vinha sendo dizimado por uma praga. Algum tempo depois, conhece seu grande amor, Maria Santa, papel de Duda Santos. Para desespero de José Inocêncio, a jovem morre no parto de seu filho caçula. O fazendeiro, porém, nunca conseguirá superar esse trauma. “É uma novela que tem rito, festa, macumba, tem respeito pela religião afro-brasileira e é esbarrada no mito. Tudo isso em um personagem tão protegido e misterioso. Fiquei doido. Tinha de fazer”, aponta.
P – Quando “Renascer” foi ao ar originalmente, você tinha pouco mais de um ano. Como foi seu contato inicial com a obra de Benedito Ruy Barbosa?
R – Quando estávamos conversando ainda sobre a possibilidade de fazer ou não a novela, eu fui assistir aos capítulos da primeira fase. Foi muito importante ter visto porque eu fiquei louco para fazer. Fui estimulado por toda a beleza da obra. Essa primeira fase é uma das coisas mais bonitas que já vi. É um texto muito rico, né? Tem rito, tem festa e tem macumba. Tem um pacto com cramulhão, Deus e um Jequitibá. Fiquei doido. Sabia que tinha de fazer. Mas nunca encarei esse remake como uma espécie de cobrança ou a ideia de superar algo. É muito mais homenagear o que veio antes.
P – Como assim?
R – Temos um texto muito poderoso e que vale a pena ser contado muitas outras vezes. “Renascer” é a novela da vida de muita gente. As pessoas sabem de cor os personagens, as cenas e as falas. Tenho uma relação de muito respeito pela obra original. Sou um ator apaixonado pela história dos nossos atores mais velhos. Amo, tenho interesse e estudo o que veio antes. Admiro muito nossos atores mais velhos. Então, nunca encarei essa segunda versão como um peso, um fardo ou uma responsabilidade para superar algo.
P – Como foi seu processo de prosódia para viver o personagem?
R – Eu trabalhei com a Iris Gomes, que é uma entidade na área. Ela estava, inclusive, na equipe da versão de 1993 de “Renascer”. Nunca tinha tido a sorte de trabalhar com ela e fiquei feliz com essa oportunidade. A gente não foi trabalhando o texto com sotaque direto. Primeiro começamos a falar do cenário político de Ilhéus, de como se dá o manejo do cacau. Foram semanas e semanas. Quando percebi, já estava pegando uma certa musicalidade para falar. Foi bom trabalhar com ela porque fiquei preocupado com o sotaque no início. Não tive receios de críticas do outros, mas de mim mesmo. Medo de não dar conta.
P – A partir da segunda fase, o José Inocêncio será interpretado por Marcos Palmeira. Você chegou a conversar com o ator algo sobre a composição do personagem?
R – A gente se encontrou em algumas leituras, mas sou muito amigo do Marquinhos. Trabalhamos juntos em “Cheias de Charme” e ficamos muito grudados naquele trabalho. Acho que temos uma temperatura parecida, uma forma similar de olhar para as coisas. Em alguma medida, a gente se encontra na temperatura, no olhar e na fala. Tudo isso faz com que não seja necessário que tenhamos uma semelhança física ou que tivéssemos de ficar grudados na preparação. Foi bem estranho, na verdade, fazer 13 capítulos e não resolver os conflitos do personagem.
P – Por quê?
R –Ao final da minha participação, o José Inocêncio já estava bem diferente do começo. Esse personagem sofre uma grande perda e é estranho não estar lá para resolver. Essa herança o Marquinho que vai herdar e entender toda essa relação com o filho mais novo. Combinamos algumas coisas no jeito de falar, mas não levamos isso como uma obrigação.
P – Seus últimos anos têm sido bastante intensos no vídeo. Além de “Renascer”, você também esteve em “Todas as Flores”, “Rota 66” e “Betinho: No Fio da Navalha”. Essa sequência de projetos foi uma busca sua ou os convites foram surgindo de forma irrecusável?
R – Depende. Uma carreira é construída com muitos nãos também. Falo muito não para as coisas que não me interessam. E isso é grande privilégio, né? Uma profissão tão complicada, dolorida e que sofreu tantos nos últimos anos. A cultura de um modo geral sofreu muito. Tenho consciência de que sou um ator privilegiado por estar trabalhando bastante e em projetos que me interessam tanto.
P – Produções com conotações políticas e sociais são mais atraentes para você?
R – Tenho a sorte de encontrar projetos que falam do país e da história do nosso país. “Rota”, “Betinho”, “Marighella” e “Aquarius”, por exemplo, são trabalhos muito queridos. É importante usar a arte como um microfone social e político. Se eu fosse dentista, eu falaria sobre política o tempo inteiro. Política está em tudo. Nossa história está em tudo. Como uma figura pública, faço novela e cinema, que são canhões. Fico feliz que essas plataformas me ajudem a conversar sobre tudo isso.
P – A sua constante escalação para papéis de destaque gerou um alcance nacional do seu nome. Como você tem lidado com todo esse assédio e o rótulo de galã nos últimos anos?
R – Não é que o título de galã me deixa tímido, eu só não consigo entender muito o motivo de ser uma questão que vai e volta. Quem acha que eu sou galã, acha. Não entendo ser um assunto tão recorrente. Não sei o porquê. Dedico muito do meu tempo e do meu interesse para as coisas que eu faço, como “Renascer”, por exemplo, ou o roteiro que estou escrevendo agora. Gosto mais de falar de trabalho. E não é que eu não goste de falar sobre ser galã, é que me fazem falar muito.
“Renascer” – Globo – Segunda a sábado, às 21h30.
Amigos de set
Humberto Carrão se encantou rapidamente pelo texto de “Renascer”, da Globo. Mas, ao se juntar ao elenco em Ilhéus, na Bahia, para as gravações, o ator também encontrou uma rápida conexão com os colegas de cena. “O mais bonito dessa profissão são os encontros. Encontrei pessoas muito importantes para mim”, valoriza.
Ainda no ano passado, o ator esteve em Ilhéus para as primeiras gravações da trama. Durante a viagem, o ator desenvolveu uma amizade com Adanilo e Evaldo Macarrão, que interpretam Deocleciano e Jupará. Os dois são os fiéis escudeiros do protagonista José Inocêncio. “São meus amores. Ficamos grudados em Ilhéus. A gente aproveitou muito e se divertiu. É muito bonito quando temos esses encontros fora da tela também”, aponta.
Cenas na memória
Assistir aos primeiros capítulos da versão original de “Renascer” foi importante para Humberto Carrão decidir embarcar no remake. A novela, porém, não foi a grande referência artística do ator durante as gravações. “Uma vez até vimos nos estúdios uma cena da novela antiga que tínhamos gravado há pouco tempo. Mas não ficamos comparando as atuações. Foi só uma forma de ver e reverência o que foi esse projeto. É uma novela muito poderosa”, afirma.
Instantâneas
# Antes das gravações, Humberto Carrão não conhecia a cidade de Ilhéus. “Sou louco pela Bahia. Ficamos um mês por lá e foi o máximo”, afirma.
# Ao lado de Andréia Horta, o ator faz a narração da série documental “Jessie & Colombo”, original Globoplay. A produção aborda a prisão e os desafios enfrentados pelo casal de militantes Colombo Vieira de Souza Junior e Jessie Jane Vieira de Souza durante a ditadura militar no Brasil.
# Entre 2015 e 2020, Carrão apresentou o programa “Pausa pro Café”, do Canal Brasil.
# Em “Betinho – No Fio da Navalha”, o ator viveu o cartunista Henfil, irmão do sociólogo Betinho.
