Era comum naqueles tempos, tropeiros e viajantes darem de cara com os tatus que habitavam as terras do Tatuapé. Entre tantos, os mais conhecidos era o tatu-cascudo, o tatu-bola e o tatu-galinha. Quando havia tempo, cavavam rapidamente um buraco no chão, procurando esconder-se nele.
Ao serem apanhados por tropeiros ou caçadores acabavam servindo de refeição. A carne desses simpáticos mamíferos desdentados era apreciada por grande número de pessoas. Coisa importante, que de forma alguma deve ser esquecida, é o fato desse pequeno animal nos ter legado parte do nome do bairro: Tatuapé. Nome esse originário do tupi-guarani, cujo significado é: caminho do tatu.
Preás e capivaras também eram vistos em terras do Tatuapé. Exímios nadadores, pois eram animais de terra e água, sempre andavam nas proximidades das matas que margeiam os rios e córregos. A capivara, o maior dos mamíferos roedores de terras brasileiras, quando morta tinha seu óleo extraído para fins medicinais. Chegava a pesar 50 quilos. Já o preá era um tipo de ratão d’água. Costumavam sair à noite para comer, servindo para sua alimentação diversas espécies de gramíneas.
Outro animal, de vida noturna, que vivia por estas plagas era o fedorento gambá. Às vezes na terra, às vezes nas árvores, mas sempre a procura de alimento. Comiam de tudo: insetos, pequenas lagartas, ervas e folhas de arbustos. Seu rabo longo e forte ajudava-o a prender-se nos galhos das árvores. Vez por outra, viam-se cobras pela região. Algumas, como as corais eram venenosas, mas a grande maioria inofensivas cobras d’água.
As noites quentes, prenunciadoras de chuva, eram animadas pelo coachar dos sapos, que habitavam córregos e lagoas. A eles juntava-se o aborrecido e ininterrupto cri-cri dos grilos. Nos dias de calor sufocante ouvia-se o estridente e contínuo silvo das cigarras. Este, potente e agudo, alcançava grandes distâncias.
No final das tardes de verão, enxames de cupins alados, que os garotos erroneamente chamavam de siriris, saídos não se sabe de que pontos da terra, enchiam as ruas do bairro. À chegada da noite tinha início a deslumbrante coreografia representada pelo vôo dos pirilampos, também conhecidos por vaga-lumes. Os garotos corriam para todos os lados com o objetivo de apanhá-los.
Quando conseguiam seu intento, os prendiam em caixas de fósforo ou mesmo entre as mãos, e, fascinados, ficavam apreciando o mágico pisca-pisca das suas luzinhas.
No período das chuvas – dezembro, janeiro e fevereiro -, grandes áreas do bairro ficavam de tal forma alagadas, que tornavam quase impossível o trânsito de pessoas e carroças. Na altura da Água Rasa, devido à sua pequena profundidade, o ribeirão Tatuapé transbordava, inundando toda a várzea adjacente. O nome daquele bairro deriva desse fato.
O alagamento estendia-se quilômetros abaixo, atingindo o ponto de confluência do ribeirão com a atual Rua Padre Adelino, que naquele tempo era apenas uma picada de terra batida. A precária ponte de passagem que havia no local ficava inteiramente submersa.
O mesmo ocorria na várzea do ribeirão Aricanduva. Em tempos passados inexistiam ruas asfaltadas, em conseqüência as áreas cobertas de mato e a própria terra absorviam rapidamente o excesso de água. Hoje, o problema das enchentes ainda subsiste e, agravado pela total ocupação das terras e a impermeabilização das ruas, ocasiona graves prejuízos à população.
O Rio Tietê, cujo curso era sinuoso, repleto de enseadas e baixios (os trabalhos de retificação e de desassoreamento só foram realizados bem mais tarde), inundava praticamente toda a vasta extensão do atual Parque Novo Mundo e boa parcela das terras do baixo Tatuapé. Em alguns lugares, como a planície da Vila Gomes Cardim e outros pontos do bairro, o solo era constituído de um denso e pegajoso barro preto (a Rua Tijuco Preto é uma referência a ele).
Carroças e animais ao se desviarem ligeiramente do centro das ruas, na época apenas estreitas veredas, normalmente caiam nas valetas laterais, tendo suas rodas afundadas até a altura do eixo. As valetas não eram outra coisa senão esgotos a céu aberto. Ao caírem em tal situação, os carroceiros chicoteavam desesperadamente seus cavalos na tentativa de saírem do lamaçal. Os pobres animais, açoitados dessa forma pelo dono, debatiam-se inutilmente.
A solução era desatrelá-los e, de um ponto mais distante e seco, puxar o veículo por meio de cordas longas. Pior ainda, quando começaram a trafegar caminhões pelas ruelas do Tatuapé. Era coisa absolutamente normal vê-los emborcados nas citadas valetas, cabines e carrocerias retorcidas. Nessas ocasiões surgiam outros motoristas em socorro do companheiro, que acabavam também atolando seus veículos.
A tarefa de descarregar a carga e desatolá-los demandava horas, às vezes um dia inteiro. Toda a operação era assistida pelos moradores e a criançada da redondeza. Estes, quando solicitados, não negavam ajuda aos infelizes caminhoneiros.
No período das chuvas, a água dos poços que abasteciam as casas e chácaras chegava facilmente até a boca dos mesmos. Naqueles dias, chegava-se a extraí-la sem o uso do sarilho, tal a abundância e proximidade. Além dos poços cavados pelos moradores em suas propriedades, grande número de córregos de água limpa e nascentes espalhavam-se por todas as partes do bairro. Entre outras, foi famosa a da Biquinha.
Ficava no final da atual Rua Felipe Camarão, mais exatamente na parte baixa da rua Restinga, nas proximidades do aterro da ferrovia. Dela jorrava uma água cristalina de pureza incontestável. Pessoas de todos os rincões e até de outros bairros vinham encher suas vasilhas com a magnífica água.

Os usuários contavam maravilhas a respeito de suas propriedades. Não se tem notícia de ter sido alguma vez analisada, mas não cabe nenhuma dúvida quanto à sua qualidade, a unanimidade dos usuários a comprovam.
Era esse, aproximadamente, o quadro que se apresentava aos viajantes e tropeiros que passavam pela nossa região nos primeiros anos do século passado. Se São Paulo naquele tempo não passava de uma cidade provinciana, apenas precariamente urbanizada no centro e bairros adjacentes, que dizer, então, dos bairros mais afastados? O Tatuapé, simples zona de passagem do Centro à Penha, era considerado zona rural. E com justa razão, afinal era daqui que saia a maior parte dos produtos hortifrutigranjeiros para abastecer a cidade.
Só a partir de meados da década de 20 o bairro começou a emergir lentamente, para chegar ao final do século a um fantástico estágio de prosperidade. Tal é sua importância nos dias de hoje, que a Folha de São Paulo, do dia 28 de maio de 1995, ao publicar uma matéria sobre os costumes e gostos dos jovens paulistanos, dividiu a cidade em quatro setores: Jardins – Itaim, Santana, Vila Madalena e Tatuapé.
Tudo o que segue é resultado de profunda pesquisa e da coletânea de dezenas de depoimentos dos mais antigos moradias do bairro. É um esforço para manter viva uma das histórias mais fascinantes dos bairros da capital paulista.