Alguém se lembra do ônibus circular? Antigamente, muitos bairros da cidade contavam com esta linha. Sem ponto final, seu itinerário atendia a trechos que ficavam de fora dos grandes eixos de circulação do transporte público, mas que eram muito importantes para a locomoção de inúmeras pessoas diariamente.
Mesmo com longos intervalos e às vezes com uma demanda não muito alta de passageiros, o circular era importante porque atendia os chamados “miolos” dos bairros que hoje sofrem uma lacuna. Assim como acontece em vários outros bairros, no Tatuapé, na grande maioria das interligações, apenas determinadas vias ou eixos estruturais em direção a outros bairros, ao centro, às estações de metrô ou de trem, são atendidos por ônibus ou vans.
EXEMPLOS
Não faz muito tempo, esta Gazeta divulgou a dificuldade que os moradores da Vila Carrão têm para chegar à Subprefeitura Aricanduva/Formosa/Carrão. De acordo com Maria Dilma Watanabe, quem depende do transporte público e está na Avenida Conselheiro Carrão não tem a opção de uma linha que atenda a Rua Atucuri.
“É complicado, pois temos que percorrer um longo caminho a pé para chegar lá. Uns quatro quarteirões. Ou fazemos isso ou temos que ir até a estação Tatuapé do Metrô para pegar um ônibus que passa na porta da subprefeitura. Isso não faz sentido. Estamos sem alternativa neste caso”, observou. A linha em questão é a 3762 – Jardim Iva, única que atende a Rua Atucuri na altura do número 699, endereço da subprefeitura.
Outra linha que sofreu alterações no seu percurso foi a 473T/10 – Cambuci/Parque São Jorge, antes 473T/10 Parque São Jorge/Vila Mariana. Em junho deste ano, Miguel Lopes Ramos entrou em contato com a reportagem para relatar que a mesma deixou de circular aos sábados, domingos e feriados.

Em setembro de 2013, Rogério Lourenço, então usuário do itinerário Parque São Jorge/Vila Mariana, questionou as mudanças realizadas. “Por que alterar o trajeto e prejudicar tantos passageiros? Não dá para entender”, comentou.
Lourenço, que mora no Tatuapé e trabalha na Vila Mariana, destacou que o ônibus não iria passar mais pelas ruas Antonio de Barros, Maria Otilia e Coelho Lisboa; além da Praça Rosa, Metrô Tatuapé e Avenida Lins de Vasconcelos.
EQUACIONAR
Segundo o diretor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo do Mackenzie, Valter Caldana, a distribuição do transporte público em São Paulo é fundamentalmente baseada em três pontos: pesquisa origem/destino; com a elaboração de um plano interno de transporte urbano; e através de estudos de demandas feitos pela Secretaria de Transportes.
“Ao longo dos anos, um dos critérios que passou a ser levado em conta é que houvesse o menor número de linhas ociosas, mas isso acabou gerando algumas lacunas. Na época da CMTC, por exemplo, havia um equilíbrio maior porque se tinha o critério de origem/destino, mas se preservava atender a demanda de determinadas vias consideradas importantes, mesmo que elas tivessem um menor número de passageiros”, observou.
“O que se espera agora é que, com o novo Plano Diretor, as linhas passem por uma reestruturação e que volte a se levar em conta algumas questões relevantes para se atender, além dos corredores de ônibus e acessos às estações de metrôs, também os ´miolos’ dos bairros, usando um transporte de média e grande capacidade para equilibrar o sistema de frota a todos”, completou Caldana.
É POSSÍVEL
Para Adamo Bazani, jornalista com especialização na área de Transportes Urbanos, a questão pode, sim, ser equacionada com a estruturação de um semi-sistema tronco-alimentador com veículos midi ou micros que contemplem as áreas não atendidas atualmente.
“Ainda faltam corredores na cidade, mas já dá para fazer mais interligações entre os bairros identificando as lacunas hoje existentes. Às vezes as pessoas não querem se deslocar para a região central, mas para pontos dentro do próprio bairro. E aí elas vêm que não há muitas opções de transporte público para isso. O que muitas fazem? Acabam pegando o carro. E isso vai na contramão da política de mobilidade urbana.”
Bazani faz outras considerações. “Muitas vezes não se consegue chegar ao bairro vizinho apenas com uma condução. É preciso pegar dois ou três ônibus. E isso não é um problema só do Tatuapé, mas de toda a região metropolitana. A nova licitação que está sendo aguardada pode ser uma esperança para que se pense melhor no sistema operacional das linhas da cidade, não privilegiando apenas os grandes corredores”, finalizou.
SPTRANS
De acordo com a SPTrans, em 26 de outubro de 2013 ocorreu uma reorganização de linhas em parte da Zona Leste com o objetivo de reduzir a sobreposição de itinerários e melhorar a eficiência dos serviços na região, com o aumento da oferta de ônibus e lugares em função do incremento de novas tipologias veiculares.
“Essa reorganização possibilitou a melhoria no desempenho de todas as linhas da região, reduzindo os intervalos entre partidas e permitindo regularidade na operação. Com a nova situação, a região do Tatuapé passou a ser atendida por 104 linhas com frequência, no pico da manhã, de 712 ônibus/hora, as quais propiciam ligação com os principais polos de interesse como: Estação da Luz, Praça da Sé, Praça do Correio, sistema metroviário, terminais de transferência (Parque Dom Pedro II, Princesa Isabel, Vila Carrão e Penha) e Vila Prudente. Vale ressaltar que, com a utilização do Bilhete Único, o usuário aumentou suas opções de deslocamento, desenvolvendo seu próprio itinerário, podendo realizar até quatro viagens no período de três horas, ao custo de apenas uma tarifa.”